Imagine uma história dos media invertida: uma história da comunicação em que os meios audiovisuais surgiram em primeiro lugar. Seguindo a sugestão de Steve Johnson, em “Tudo o que é mau faz bem”, uma história em que os jogos de vídeo foram inventados muito antes que os livros. Qual seria a aceitação destes últimos? Muito provavelmente surgiriam comentários afirmando o valor de estimulação que os jogos de vídeo comportam, em detrimento do isolamento e da falta de estímulo dos nossos sentidos que a leitura oferece, como afirma o autor.Apesar do importante valor da leitura, que permite desenvolver a atenção, a concentração, estimulando o pensamento; e comparando-o aos jogos de vídeo, este trata-se de um processo passivo, onde não é possível interferir no desenrolar dos acontecimentos. Mas a controvérsia gerada em torno desta temática não é se não, uma dificuldade em ver para além dos benefícios da leitura, que não têm que colidir com os benefícios dos jogos de vídeo. Tem de se criar um espaço para equacionarmos vários pontos de vista diferentes, para que juntos, a leitura e os jogos de vídeo, proporcionem benefícios para as crianças.
O efeito do progresso da tecnologia é cada vez maior, segundo um artigo da Pública, o elevado número de casos de hiperactividade poderá significar muito mais do que uma simples doença. A crescente exposição precoce às múltiplas imagens audiovisuais poderá estar a causar problemas de atenção, uma vez que o cérebro passa a aceitar apenas um elevado grau de estimulação, consequência da velocidade e fragmentação dos estímulos visuais. Podemos estar perante uma mudança na inteligência humana, que se depreende com formas de pensar mais imediatas e tridimensionais.
Existe um choque entre a novidade e a tradição: “Avô, vem jogar Playstation comigo.”; ao que este responde: “Neto, o avô não percebe dessas modernices. Vem antes jogar ao berlinde.”. As brincadeiras lúdicas têm vindo a mudar com o tempo, adaptando-se à rapidez com que as nossas crianças aprendem. Enquanto as novas gerações tendem a valorizar apenas as novas tecnologias, as gerações mais antigas não se conseguem adaptar.
Os jogos de vídeo, devido a terem surgido depois dos livros, criaram uma certa rejeição por parte das pessoas, sendo vistos como algo não benéfico. Mas o problema é que as pessoas só se limitam a olhar para um dos lados da questão, em vez de analisarem a frente e o verso. Claro que por um lado, os videojogos têm conteúdos impróprios e violentos, e que, possivelmente esses mesmos conteúdos poderão determinar comportamentos violentos no futuro. Mas o mesmo se pode dizer dos livros. Há uns anos atrás houve um caso de suicídio de um rapaz que se atirou de um prédio porque pensava que tinha poderes mágicos como o seu herói, Harry Potter. Será então uma comparação justa? Ou serão estes dois passatempos mais semelhantes do que parecem?
O problema apontado por este artigo é, não só a inadequação do sistema de ensino, que não tem em conta estas novas competências, exigindo às crianças capacidades e comportamentos incompatíveis com esta mudança; como também o facto de se encarar esta transformação de capacidades como uma doença, o que leva à administração de Ritalin (anfetamina), a um elevado número de crianças por todo o mundo.
Mas de quem é a culpa? Dos media que “bombardeiam” as novas gerações? Ou, quem sabe, dos pais que tomam uma atitude super protectora de colocar os seus filhos cada vez mais em contacto com esse novo mundo, de modo a não deixarem que as crianças saiam de casa e “corram o risco” de brincar na rua?
Cada vez mais os pais estão a ceder aos pedidos dos seus filhos, tornando-os crianças mais dependentes e sem limites. Além disso, a exposição excessiva à tecnologia, trouxe o comodismo de receber tudo pronto e na hora, o que gera indivíduos impacientes e cada vez menos independentes.
Esta situação agrava-se pelo facto de as tecnologias serem uma presença constante no nosso dia-a-dia e de os pais terem cada vez menos tempo para estar com os seus filhos; o que faz com que haja um aproveitamento exagerado das tecnologias… Os pais em vez de brincarem com os filhos, de os estimularem para outras actividades e de lhes mostrarem que existe um número infindável de coisas para fazerem a par de estarem sentados horas em frente à televisão a jogar, limitam-se muitas vezes a dizer “Ah, joga um bocadinho de Playsation enquanto a mãe acaba o que está a fazer!”. Geram-se então questões controversas: Será que é justo culpar as tecnologias? O seu uso será o mais correcto?
A questão da atenção é proeminente, dado que é o que permite estabelecer ligações aos assuntos, assim como relações pessoais. Sem a sua existência tudo se torna superficial. Torna-se assim imperativo uma tomada de consciência para a influência tecnológica e para todas as mudanças que esta permitiu.
Será necessária uma adaptação da escola a esta nova realidade, mas também é importante que a escola mantenha os seus métodos mais tradicionais, que fomentam outras competências importantes para o desenvolvimento cognitivo humano.
Imagine. Questione-se. E pondere todos os pontos de vista.
0 comments:
Post a Comment